5. Você sai de casa sem guarda-chuva, é pego de surpresa pela chuva e entra em um bar qualquer

Imagem: Christina Tsevis

Sinto um leve pingo d’água cair sobre meus ombros. O céu, que estava completamente azul algumas horas atrás, está coberto de nuvens cinzentas. Abro minha mochila e verifico que meu guarda-chuva não está ali. Merda.

Logo os pingos de chuva se tornam mais numerosos e mais grossos. Sem pensar duas vezes, entro no primeiro lugar que vejo em minha frente. É um bar com tema medieval, com uma decoração tão exagerada que chega a ser ridícula. No canto, alguns homens bebem cerveja e conversam alegremente.

Olho as horas em meu celular e vejo que estou atrasado para o meu encontro. Eu poderia pegar um táxi e ir encontrá-la, mas estou com pouco dinheiro no bolso e seria difícil atravessar a cidade e ainda ter dinheiro para pagar o jantar. Mando uma mensagem para Brianna, dizendo que não poderei ir por conta da chuva.

Não vou negar que está sendo complicado ser um homem de quarenta anos desempregado e vivendo em uma das cidades mais conhecidas do mundo. Desde a morte de minha esposa, no ano anterior, tenho preenchido minha vida com encontros com garotas do Tinder e sexo casual.

Afasto meus pensamentos e sento-me em uma mesa no fundo do bar. Peço uma cerveja e fico planejando o que farei no outro dia, onde passarei para entregar meu currículo. Estou distraído em meus pensamentos e nem percebo quando alguém aparece em minha frente.

— Não acredito que é você mesmo.

Olho para ela. Seus cabelos, antes castanhos, agora estão loiros. Entretanto, tirando algumas marcas da idade, ela continua exatamente a mesma. O mesmo sorriso e os mesmos olhos daquela garota de dezesseis anos pela qual me apaixonei.

Meu coração dá um salto e eu me levanto para abraçá-la. Fico algum tempo pensando no que dizer, mas nada me vem à cabeça. É estranho perceber que depois de quase trinta anos ela ainda mantém o mesmo efeito sobre mim.

Puxo uma cadeira para ela e nós ficamos conversando e bebendo durante muito tempo. Ela me conta que se casou seis meses antes de terminar a faculdade, mas que se separou um tempo depois. E então ela fala que namorou com alguém durante seis anos, mas eles se separaram na semana anterior.

— O que aconteceu? – pergunto. – Por que vão se separar depois de todo esse tempo?

— Vou me mudar amanhã. Ele não quis me acompanhar.

— Para onde você vai?

— Suíça. Não o culpo. Poucas pessoas seriam capazes de deixar tudo onde vivem só para viver uma história de amor em outro lugar.

Continuamos conversando, mas eu penso nisso o tempo todo. Quando o bar fecha, ela pergunta se pode ir para minha casa.

Assim que entramos em minha casa, meus lábios se chocam com os seus. Sua boca, que tinha gosto de vodca na adolescência, agora possui um gosto forte de cerveja.

Passamos a noite toda juntos, aproveitando cada momento. Segundos antes de cair no sono, observo cada detalhe do rosto dela, gravando aquela cena para sempre em minha mente.

Assim que acordo, vejo que ela não está mais ali. Em cima de minha mesa, encontro um papel com seu número de telefone. Abro um sorriso, lembrando de tudo que aconteceu na noite anterior.

Aquela noite de amor era tudo que eu precisava dela. Depois disso, eu tinha certeza que a havia superado completamente. É por isso que na semana seguinte eu abandonei tudo que tinha nos Estados Unidos e fui encontrá-la na Suíça.

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.