6. Você descobre uma máquina estranha no porão e acaba sendo lançado em uma viagem do tempo

Imagem: Pequena Miss Sunshine

Observo as inúmeras caixas espalhadas pelo lugar. Foi uma ideia estúpida decidir limpar o porão da casa de meus avós sozinha. Entretanto, tive que fazer isso, pois o último pedido de meu avô era que ninguém, além de mim, mexesse em suas coisas.

Abro uma das caixas empoeiradas e encontro uma pilha de fotografias de meus avós. Em todas essas fotos, eles parecem felizes e apaixonados. Mas quem via os dois de perto sabia que não era assim. Houve inúmeras traições de ambas as partes eles se xingavam o tempo todo.

Na verdade, meu avô reclamava de tudo. Reclamava do meu pai – seu único filho -, de minha avó, do tempo e até do cachorro da família. A única pessoa de quem ele nunca reclamou foi de mim.

Nós dois sempre fomos melhores amigos. Ele me ensinou a ler, me ensinou a andar de bicicleta. Todos os domingos, íamos juntos caminhar pela cidade. Ele me aconselhava em tudo e, em seus últimos dias, a única pessoa que ele queria que lhe fizesse companhia no hospital era eu.

Ele morreu em meus braços. E, segundos antes de morrer, ele me disse que tinha algo para mim no porão, mas que eu deveria procurar sozinha.

Respiro fundo, engolindo meu choro. Continuo mexendo nas grandes caixas. Ao ficar na ponta do pé, para colocar uma caixa em cima da prateleira, acabo esbarrando em uma geladeira velha. A geladeira é enorme, pintada de roxo com um design futurista. A porta da geladeira se abre e eu percebo que o objeto não é o que eu imagino.

Entro no objeto, que possui diversos botões. Aperto um botão grande e vermelho e, a princípio, nada acontece. Logo, a porta se fecha e tudo começa a balançar. Eu me sinto tonta e desmaio.

Ao acordar, percebo que não estou mais no porão de meu avô. Uma claridade forte irrita meus olhos e eu demoro um tempo para perceber onde estou. Um hospital. Será que tudo foi um sonho e meu avô não morreu? Será que só vim buscar algo e acabei desmaiando?

Olho para a placa no canto da sala de espera. Hospital Maria das Graças. Isso só pode estar errado. Esse hospital já fechou há mais de vinte anos. Envolveu-se num escândalo de lavagem de dinheiro e acabou falindo.

Vou falar com a recepcionista para entender o que está acontecendo, mas ela não me escuta. Então, vejo um rosto conhecido. Ele possui um olhar preocupado e segura o terço na mão com muita força.

Belisco-me, tentando acordar desse sonho. Olho mais uma vez para ter certeza que é ele. Meu avô está vinte e poucos anos mais novo, mas com certeza é ele. Reconheceria aqueles olhos em qualquer lugar do mundo.

Ele atravessa a recepção do hospital e eu decido segui-lo. Acompanho-o enquanto ele passa por diversos corredores, observa dentro de quartos. Ele para em frente da placa “Maternidade”.

Minha vó está lá. Eles se abraçam por um segundo e meu avô pergunta:

— Já nasceu?

— Ninguém disse nada ainda.

Fico ali, observando os dois em silêncio. A minha vontade é de sentar entre eles e abraçá-los com força, mas algo me deixa presa na cadeira onde estou sentada.

Minutos depois, um enfermeiro diz que os dois podem entrar. Sigo-os até o quarto de tons azuis e vejo meus pais. Meu pai está em pé, beijando a testa de minha mãe, que segura um bebê no colo. Eu.

Meu avô estende seus braços para pegar o bebê, que ele começa a ninar. Um sorriso enorme surge em seu rosto. Eu nunca o vi sorrindo dessa maneira.

Sinto tudo balançar novamente. Encontro-me no porão da casa de meus avós mais uma vez, deitada no chão. Ao meu lado, encontro uma carta:

“Minha querida,

Se estiver lendo essa carta, provavelmente já terei morrido. Foi divertido viajar na máquina do tempo? Porque eu criei ela apenas para voltar para o melhor momento da minha vida: o dia do seu nascimento.

Você sempre foi e sempre será a minha pessoa favorita no mundo. Desde o primeiro momento que lhe peguei em meus braços, sabia que faria de tudo para lhe proteger. Logo eu que reclamo de tudo nunca encontrei um motivo sequer para reclamar de você.

Obrigado por todos os momentos bons que passamos juntos. Eu tenho muito orgulho da mulher que você se tornou e não importa o que aconteça, eu sempre estarei com você.

Além disso, sempre que estiver se sentindo mal e precisar de mim, a máquina do tempo estará aqui para lhe levar até mim. Obrigado por essa aventura, neta querida. Até a próxima.”

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.