Imagem: We Heart It

9. Depois de anos surdo, você volta a escutar e não sabe como será ouvir sua música favorita outra vez

O consultório do Dr. Adam é bastante iluminado e colorido, com muitas ilustrações coladas nas paredes. O cheiro de limpeza é  bastante forte e, lá fora, o sol aquece todos que caminham na rua.

Em libras, Dr. Adam me avisa que vai ligar o implante coclear – um equipamento com um microfone, um processador de fala e um transmissor – e que, provavelmente, eu voltarei a escutar. Meu coração se acelera. Voltar a escutar é o meu maior sonho desde que perdi a audição com dez anos.

Dr. Adam encaixa o aparelho em meu ouvido, ligando-o bem baixinho. O que antes era silêncio absoluto transforma-se em pequenos ruídos, como o barulho do ar condicionado e do computador.

Ele aumenta o volume do aparelho e começa a falar comigo. Depois de anos sem ouvir nem um ruído, finalmente estou escutando. Dr. Adam me fala sobre os cuidados com o implante e sobre o retorno, mas a única coisa que consigo pensar é que finalmente consigo ouvir.

No caminho de volta para casa, aproveito para tentar decifrar cada som. Escuto uma garotinha correndo e brincando com seus amigos, o som dos pássaros cantando, o barulho dos carros correndo. O barulho da sacola da mulher idosa, de pessoas conversando do outro lado da rua, o barulho dos meus passos no chão.

Ao colocar a chave na fechadura, para abrir a porta de casa, escuto o barulho de seu giro e da porta rangendo ao abrir e ao fechar mais uma vez. Sento-me no sofá, escutando suas madeiras velhas rangerem com o meu peso.

Pego meu celular e abro o YouTube. Digito o nome da minha música favorita. Era tão bom escutá-la que eu fazia isso o tempo todo. Para ir para a escola, para tomar banho, para dormir.

Mas já faz sete anos. E se a minha música favorita não for tão boa quanto eu me lembro? E se, ao escutá-la, eu destruir todas as lembranças? Meus dedos tremem e eu não consigo apertar o play. Não quero estragar tudo.

Por outro lado, lembro que prometi para mim mesmo que, se algum dia eu voltasse a escutar, ouvir essa música seria a primeira coisa que eu faria. Não posso descumprir uma promessa dessas.

Ainda tremendo, aperto o play. Escuto o som doce do violino, o solo de guitarra. Quando a música acaba, meu rosto está encharcado. Isso não foi como eu esperava, foi ainda melhor. Aquele garotinho de dez anos de idade tinha bom gosto, com toda certeza.

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.