
A mulher, deitada no sofá, passa a mão na barriga saliente. Todos os dias, conversa com aquele pequeno pedaço de si e também recita poemas. Lorca, Quintana, Bandeira, Coralina, sempre grandes autores da biblioteca pessoal de quase quatro mil livros.
Logo, as leituras passam a ser outras: contos de fada, histórias fantásticas e até gibis. Cultiva na filha a criatividade e o amor por livros, coisas que nunca lhe ensinaram na infância.
Ela vê a filha começar a ler e percebe que ela repara até nas informações nutricionais de um saco de feijão. Além disso, a mãe não reclama quando encontra inúmeros papeis espalhados pela casa, nos quais a menina treina seu nome: L-A-U-R-A.
A mãe começa a comprar livros com ilustrações, gibis da turma da Mônica, que a garota devora. Também observa as longas leituras que ela faz junto com a dentista que lhe apresentou os livros do Ursinho Pooh, que vive aventuras mágicas com Tigrão, Leitão e Ió – seus personagens favoritos.
No ápice da era Orkut, rede social mais popular no Brasil dos anos 2000, a mãe satisfaz-se ao ver a filha começar a escrever fanfics – também chamadas de webnovelas à época – e a conquistar um pequeno número de leitores.
Porém, como as modas são voláteis, o Orkut acaba e a garota perde os seus leitores. Na fase Facebook, na qual “quase ninguém está interessado em ler textões”, ela abandona o mundo da escrita e da leitura.
A mulher, que voltou a não dormir à noite, observa a filha se envolver em um mundo louco, cheio de amigos falsos e noitadas – todos os dias da semana.
Um ano antes da democracia brasileira começar a ser desmontada com o impeachment da presidenta Dilma, a filha inicia o curso de Comunicação Organizacional na Universidade de Brasília, enchendo-a ainda mais de orgulho. Dois anos depois, a reviravolta: a garota quer ser escritora.
A mãe pesquisa cursos de pós-graduação em escrita, incentivando-a a não abandonar a faculdade. Empresta a ela muitos de seus livros. O repertório da garota não é mais formado apenas de best-sellers, mas também de autores clássicos: Marcel Proust, Jane Austen, Herman Melville.
Acompanha o começo do blog Provável Escritora, a filha retornando ao passatempo de escrever fanfics enquanto busca a formatura.
Agora formada, a filha diz ser desempregada, mas a mãe não acredita nisto. Ela aposta em seus sonhos e crê que sua profissão, neste momento, é ser escritora em tempo integral.

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