
Madeleine caminha pelas ruas apressada. Traja um vestido curto, um grande casaco e um chapéu branco na cabeça. O homem, um senhor de mais de sessenta anos, quase tem que correr para acompanhá-la. Tira o chapéu preto da cabeça, para que não se molhe com o suor. Eles seguem pelas ruas de Paris, ambos sem trocar uma única palavra.
Ao passar diante de um café, sentam-se. Ele pede uma água que entrega a ela e um vinho para si, fazendo com que a garotinha dê um sorriso forçado. O homem acende um cigarro e passa a observá-la atentamente. Céus, como ela é linda! Seus cabelos castanhos claros, quase louros, suas sobrancelhas grossas e marcadas, sua maneira de agir que lhe faz parecer uma mulher e não apenas uma garotinha de onze anos.
Madeleine não olha para o homem. Pensa em como gostaria de um trago deste cigarro, algo que lhe foi privado desde a mudança de vida. Lembra da sensação de beber qualquer vinho barato que encontrasse e imagina qual seria o gosto deste que o homem bebe agora. “Nada de cigarros ou bebidas” – ele dissera–, e ela trabalhou muito para se acostumar à nova vida. Mesmo assim, sentia raiva do homem às vezes, por ser tão bom, tão cuidadoso com ela, enquanto não se sentia merecedora de nada assim.
As bebidas logo acabam mas o homem não para de observar a garota. Como Deus poderia lhe enviar um presente tão bom? Ele dispara a falar, perguntando sobre a escola, se está gostando de tudo, querendo saber o que ela fará quando adulta. Ela se sente incomodada com tantas perguntas, mas, mesmo assim, responde com muita educação e cortesia.
O café enche aos poucos com todo tipo de pessoas mas o senhor continua absorto na garota, aquela pessoa especial. Ele faria de tudo por ela, sem pensar duas vezes, e nada neste mundo seria impossível se ela estivesse ao seu lado. Ele pensa em todas as batalhas que lutou para ficar com ela, quantas vezes teve que tirá-la da rua, onde tudo podia ocorrer à pobre garota. O homem a amava tanto que nem mesmo se irritava quando ela dizia que ele tinha idade para ser seu avô. Apenas sorria e respondia: Sim, mas eu sou seu pai.
E. quando Madeleine ficava revoltada e agressiva, ele simplesmente a abraçava e esperava que a crise de choro se iniciasse. Depois, acarinhava seus cabelos e cantava uma de suas músicas favoritas, Hymne a l’amour, de Edith Piaf. E quando a garota dizia não entender o motivo de seu carinho, que não merecia ser amada pois não era sua verdadeira filha, ao que ele respondia: Creio que está enganada, o meu nome está nos seus registros.

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