
Amar Osvaldo nunca foi fácil. Desde a primeira vez, me senti atraída por ele, mas sabia que era algo muito diferente do que tinha vivido antes. Ele era um homem muito humilde e simpático, ainda que extremamente tímido. E sempre me senti tentada a conhecer os mistérios dos tímidos.
Reparei em sua beleza, mas não foram os seus olhos cor de amêndoa, seu sorriso entorpecente ou sua potência sexual que me fizeram ficar com ele. Foi o gosto pela aventura. Queria desafiar o famoso Senhor Borges, meu pai, que se achava o dono do mundo. E também o meu dono. Embora me desse as mais caras roupas, sempre escolhia o que eu deveria vestir. Por mais que me desse dinheiro para sair, dizia com quem e para onde eu deveria ir.
Estava farta dele e de sua maneira possessiva. Queria sair e conquistar o mundo, mas nunca poderia fazê-lo sob as asas de meu pai. Osvaldo foi a minha oportunidade. Fugimos. Eu, tão iludida, imaginava que iríamos viajar, conhecer cada canto deste planeta. Osvaldo me amava sem limites e eu me permitia ser amada de volta. Logo, quebrei a cara.
Acabei me tornando a mulher que meu pai esperava que eu fosse. Tornei-me uma dona de casa, mãe de quatro filhos mas, desta vez, sem dinheiro. Não possuía as regalias de meu pai. Passava o ano com seis trocas de roupa e, em minhas gestações, enlouquecia pensando em tudo que não tinha dinheiro para comprar para as crianças.
Tornei-me uma péssima esposa para Osvaldo. Queria ser uma pessoa melhor, conversar com ele e me mostrar acessível, mas não conseguia. Aquilo estava muito distante do que sonhava. Comecei a brigar com ele por qualquer motivo, reclamava enquanto ele dava o suor e a vida para me agradar.
A culpa me consumia. Entretanto, quanto mais culpa eu sentia, mais o castigava. Tinha prazer em vê-lo infeliz, queria que percebesse que era assim que me sentia. Minhas reclamações se tornavam cada vez mais frequentes, enquanto ele silenciava um pouco a cada dia.
Num momento de desespero, tentei entrar em contato com meu pai e pedir ajuda para sair daquela vida. Descobri que ele havia sido assassinado. Tinha roubado muito dinheiro, eles disseram. Foi um baque gigante, uma nova oportunidade para mudar de vida.
Osvaldo não possuía muito dinheiro, mas era honesto. E ele cuidava de mim tão bem. Tornei-me uma esposa melhor. Parei de reclamar e agradecia por tudo que meu marido fazia por mim. Chegávamos até a ter intimidades umas três vezes na semana.
Era grata e, ao mesmo tempo, infeliz. Quando meus filhos foram embora de casa, o baque foi ainda maior. Não tinha vontade nenhuma de ficar sozinha com Osvaldo mas, ainda assim, o fazia todas as noites. É que ele me amava tanto e agora eu não sabia mais se amava algo. Então permitia que ele me amasse, na esperança de que sentisse algo, que alguma coisa invadisse meu corpo e me desse um novo sopro de vida. Não funcionou.
Os anos se passavam e eu me sentia cada vez mais deprimida, enquanto, por fora, era uma mulher realizada. Fingi por muitos anos, tentando ser alguém que não era. Vivi para agradar meu pai, meu marido, meus filhos. Não mais. Deveria estar viajando por aí, conhecendo novos lugares, vivendo novos amores. Meu tempo já passara, não tinha mais forças. Todo o ânimo e força de vontade foram gastos nestes muitos anos cuidando de meus filhos e marido.
Agora, ajoelho-me e puxo o objeto debaixo da cama. Passo a mão por todo o cano, o apoio, o gatilho. É muito pesado, mas a vida parece ainda mais. Já não tenho mais coração, nem mãos ou corpo. Sou um ser sem forma. Pondero o que devo fazer. Acredito que não tenha mais um cérebro também. Tornei-me um enorme vaso de plantas. Um mero objeto de decoração que nada mais faz além de respirar e se alimentar. Talvez os vasos de plantas tenham alguma utilidade. Eu não tenho.
Os corvos gritam enquanto fogem dali.

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