
O prato de porcelana despedaça no chão. Sinto o piso romper sob meus pés e soa um barulho gigantesco em meu ouvido.
Agora estou em um lugar completamente diferente da cozinha de casa. Tudo está escuro e posso jurar sentir uma aura sombria e sinistra rondando este lugar. Deveria estar me arrumando para o trabalho mas agora não faço ideia de onde estou.
Buscando forças, levanto-me. Além do barulho da chuva intermitente lá fora, não escuto e nem vejo nada. Grito para que alguém me ajude a ir embora daqui, mas é inútil.
Ouço o riso de uma criança. Logo um garoto de seis anos aparece em minha frente segurando uma lanterna e sinalizando para que eu o siga. Os fãs de filme de terror diriam que eu não deveria segui-lo, mas todo o cenário é horrível e ele parece ser a única pessoa que pode me ajudar a retornar para casa.
Neste momento, consigo reconhecer onde estou. Os armários antigos, as salas deterioradas, o auditório onde tínhamos reuniões de planejamento. Estou em minha antiga escola abandonada há tempos.
Consigo ouvir os espíritos agora. Em um curto intervalo, passei do barulho da chuva para os gritos de desespero. Escuto as crianças no exílio da sala de castigo, falando com Deus inúmeras vezes, pedindo perdão por seus pecados. Posso até me ver no campo da escola com meu irmão, ele, extasiado com os falcões, eu, entediada, remexendo a refeição. Não era o melhor dos tempos, mas hoje tudo está pior.
O garoto de seis anos para em frente a uma porta e faz um sinal para que eu observe. Em um canto da sala, estão duas garotas de uns 15 anos, assustadas. No meio da sala, outra garota, grávida, apanhando de chicote de um homem alto e forte. Um saco de pano tapa seu rosto e não posso fazer com que ela me veja, não posso dizer para ela que a vida é mais bonita do que aquilo. Grito mas ninguém – além do garoto – me escuta.
Ele puxa meu casaco, apontando para que continuemos nosso caminho. Andamos por alguns minutos e paramos junto a outra porta. Parte de mim quer ser direta com ele e dizer que não aguento mais ver isso, enquanto a outra parte só quer sair correndo mas meu corpo me impede de fazer qualquer uma dessas coisas. Então, entro na sala.
Ali, há várias mesas de professores espalhadas. Em cada uma delas, encontram-se crianças – meninos e meninas de seis a 15 anos – deitadas sem calças, enquanto homens doentios as violam. Um arrepio me eletriza e as lágrimas correm. Olho para o lado, pronta para dizer ao garoto que esta é a pior noite da minha vida, que podemos ir lá para fora e conversar sobre qualquer assunto. Ele, porém, não está mais ao meu lado.
Agora, ele está à minha frente, desamparado, enquanto um homem o utiliza para o próprio prazer. Nesse momento, posso reconhecê-lo: Hugo, meu sobrinho, meu querido. Eu jurei protegê-lo quando meu irmão morreu mas falhei nessa missão.
Fecho os olhos, torcendo para que esta seja minha hora de partir, que seja mais um revés do destino. Quero fugir, ir para qualquer lugar fora deste pesadelo.
Abro meus olhos novamente. Não é mais noite. As luzes entram pelas grandes janelas. Estou sentada em uma cadeira e todos olham para mim. No fundo do tribunal, vejo uma placa com os dizeres “Pena de morte para a assassina”.
— Srta. Sarah Fontes, você está sendo acusada pela venda de seu sobrinho Hugo Fontes para um grupo de traficantes que o estuprou e o matou em uma escola abandonada em 1998.

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