Golpe de sorte

Os prédios erguem-se majestosos. Da calçada, pergunto-me se um dia terei algo tão sólido.

Minha vida resume-se em uma palavra: mudança. Mudei de cidade e de escola várias vezes durante minha infância e adolescência. E meus sonhos mudaram também. Já quis ser jogador de futebol, escritor, professor e dentista. Agora o meu único sonho é conseguir pagar o aluguel desta quitinete.

Para o leitor, isto pode parecer uma grande mudança, mas, naquela época, tinha dinheiro, então podia sonhar com qualquer coisa. Entretanto, depois que meus pais se foram, vendi a empresa deles e investi em uma de cosméticos. Perdi todo o meu dinheiro e minha namorada me abandonou no mesmo instante. Desde então, tenho vivido neste cubículo.

Fugindo da minha claustrofobia, gosto de caminhar quando não estou trabalhando. Sempre conheço alguns sujeitos bem interessantes que me fazem perceber que não sou o único idiota deste mundo.

— Meu amigo Ric! – um homem grita do outro lado da rua. Percebo que é Jorge, o responsável pelo meu investimento na empresa de cosméticos. – Como você está? Parece meio desanimado, abatido.

— Talvez porque você tenha tirado todo o meu dinheiro. E também me fez perder minha namorada. E esse terno aí comprou às minhas custas também?

— Claro que não, irmão. Sabe que fiquei tão quebrado quanto você. E você ter perdido aquela garota foi um livramento. Dava pra perceber que ela só estava com você por conta do dinheiro. Enfim, queria mesmo falar com você, mas não atende o telefone.

— Tive que vender meu celular para pagar o aluguel. Mas não venha inventar mais nada, não tenho mais dinheiro.

— Que isso, Ric! Não quero dinheiro, estou bem de vida. Queria me desculpar pelo que aconteceu com você, embora não tivesse como saber que aquilo iria acontecer. Te ofereço uma vaga na minha empresa, como diretor. Você não precisa investir um centavo, eu que estou apostando em você, porque acredito no seu potencial.

— Não sei, Jorge, não confio em você.

— Não precisa se preocupar, Ric, mas vou deixar você pensando no assunto. Se decidir, me procure neste endereço – ele me entrega um cartão de visita. – Foi bom te ver! Até mais!

Regresso à quitinete, imerso em pensamentos. Pego um livro, mas não consigo me concentrar. Penso em como seria bom sair dessa quitinete minúscula, comprar um celular e ter dinheiro para sair e conhecer pessoas novas.

No próximo dia, vou até a empresa e aceito o cargo. Não confio em Jorge, mas como não tenho que investir nada, não sei como pode dar errado. Trabalho duro e me dedico totalmente ao emprego.

Um mês depois, passo na sala de Jorge para receber meu salário, mas meu chefe não se encontra. Sento-me no sofá para aguardá-lo e a porta se abre com força.

— Você é o Ricardo Santana? – assinto. – Ricardo Santana, o senhor está sendo preso acusado de lavagem de dinheiro nesta companhia desde 2016.

— Mas eu comecei a trabalhar aqui mês passado.

— Não é isso que o contrato diz.

— E Jorge? – os homens me seguram, mas eu empurro seus braços.

— Não conhecemos ninguém com esse nome. Agora nos acompanhe. – desisto e eles me algemam. – O senhor tem o direito de permanecer calado.

Parece que o único sólido da minha vida será o das barras de ferro da cela.

Deixe um comentário

Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.