Cotidiano

Anda rápido pelas ruas, olhando para trás a todo momento. Não gostaria de circular sozinha essa hora porém não tem escolha. Precisa chegar em casa antes de seu marido, para que não fique muito irritado.

As ruas estão desertas, apenas um carro ou outro passando acelerado. Vê um homem vindo em sua direção, vestido com um terno preto e segurando uma pasta de trabalho.

— Importa-se que eu caminhe com você? Já é quase meia-noite, é perigoso para uma mulher ficar andando sozinha na rua.

Seu marido ficaria furioso vendo esta cena, mas ela não quer continuar andando sozinha até em casa.

— Claro. Até me sinto mais segura.

Começam a conversar. O homem conta detalhes de seu dia e ela fala sobre os colegas de trabalho. O pensamento sobre o que seu marido faria se descobrisse que um homem a acompanhou até em casa continua ali.

Passam por uma rua escura, onde ela agradece mentalmente estar acompanhada. Sozinha, estaria tremendo até os ossos, como todos os dias. Sem aviso prévio, o homem a empurra para uma parede, aproximando-se em seguida. A mulher sente sua cabeça bater e fica meio zonza.

— Você é uma delícia, sabia? – beija seu pescoço. – Seu corpo me deixa louco.

Faz força para afastá-lo e se sente muito fraca para isso. O homem a beija com extremo desejo que ela não retribui. Ele abaixa as calças e levanta sua saia. Ela abre a boca para gritar, ele coloca a mão sobre ela. Acaba se aquietando, à espera de que ele termine, o que parece uma eternidade.

— Foi um prazer te conhecer. – ele diz, afastando-se.

A mulher fica ali, quebrada, sangrando. Com o resto de sua força, arrasta-se até sua casa, buscando um pouco de afeto. A única coisa que recebe é um puxão de cabelo do marido assim que abre a porta.

— Onde você estava, vagabunda? Com mais um amante?

— Eu fui estuprada.

— Esse é o novo termo para traição?

Um murro atinge seu estômago e o sangue pincela o chão. Os socos vêm, insistentes, até pararem por fim. Mas naquele momento pouco lhe importava se o marido havia parado de bater. De qualquer forma, ela já se sentia morta por dentro.  

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.