
Lá fora, o mundo volta à vida. É estranho ver um espaço que esteve vazio por tantos meses se preenchendo novamente. Com pessoas reais. Conversando, abraçando-se, vendendo coisas. Há algum tempo, elas estavam proibidas de fazer isso.
Pelo celular, todos combinam encontros com os amigos, ir para o bar ou sair com alguém que conheceu online. Depois de tanto terem se afastado uns dos outros, elas finalmente poderão partilhar novos momentos, dividir novas lembranças.
Aqui dentro, tudo parece igual. Passei tanto tempo isolado em casa, imerso em meu home office e minhas conversas por WhatsApp que desaprendi a falar. É muito mais fácil mandar uma mensagem ou um áudio e, se alguém disser algo de que não gosto, posso ignorar. Não é assim que as coisas funcionam na vida real.
Deveria ter ido trabalhar hoje, mas não consegui. Disse ao meu chefe que estava doente. Enquanto isso, meu celular vibra incessantemente com mensagens de amigos e de antigas ficantes. Minha mão transpira a cada notificação. Eu, que saía todo final de semana, agora sinto pânico de pisar fora de casa.
Desligo o celular. Meu final de semana vai ser como todos os últimos: pipoca e Netflix.

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