Encontro às cegas

O saguão do aeroporto está lotado. Homens de terno carregando pastas andam rapidamente. Mulheres, provavelmente vindas de uma viagem internacional, carregam seu carrinho cheio de malas até o ponto de táxi. Famílias fazem um lanche no restaurante mais próximo.

Eu, por outro lado, não compartilho nenhum destes estados de espírito. Bato os pés no chão com força, arranco pedaços de pele de meus dedos. Não sei o que esperar ou o que dizer a ela. Nem mesmo sei como fiquei sabendo que ela estava chegando.

Será que vamos nos reconhecer? Nunca nos vimos pessoalmente. Não com essa aparência.

Neste momento, já roí todas as minhas unhas e o sangue pinga de meus dedos, deixando marcas no chão do aeroporto que acaba de ser limpo. Pergunto-me quantas vezes por dia aquele chão é limpo. Ou quantas pessoas passam por aqui diariamente. Qual a minha real chance de encontrá-la? O saguão fica ainda mais cheio com a chegada de novos passageiros e eu olho para os lados, procurando-a, não sabendo o que esperar. Mas sei que vamos nos encontrar, porque é isso que sempre fizemos.

E então eu a vejo. Por mais que não tivesse a menor ideia de como ela se parecia fisicamente, por mais que não conseguisse imaginar os seus olhos e seus cabelos, sei que é ela. Meu coração me diz para ir até lá, mesmo que isso seja apenas por estar fascinado com a sua beleza. Forço minhas pernas que agora tremem e paro na frente dela.

— Que saudade de você. – digo, abraçando-a. Ela reluta um pouco e eu me apavoro. E se não for ela que estou procurando? E se tudo isso for uma loucura como meus amigos me disseram?  Para o meu alívio, por fim, ela relaxa em meus braços.

— Acabei de descobrir o que vim fazer aqui. Estava em casa procurando com o que matar o tempo e senti uma urgência de comprar a primeira passagem e vir para cá. Ainda bem que me encontrou.

Abraço-a e beijo todo seu rosto, acostumando-me com a sensação de tocá-la mais uma vez, com seu novo corpo, novo cabelo e novos lábios, mas sendo a mesma mulher inteligente e divertida por quem me apaixonei no começo da humanidade.

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.