
Seguro firme sua mão. Com a outra, passo os dedos entre meus cabelos imundos e os esfrego em seu rosto. Ela sorri, tentando se concentrar no livro.
Como eu odeio aquele livro. Desde que ela iniciou a sua leitura, parece que eu fui colocado em segundo lugar. E não acaba nunca. Já faz mais de um mês que ela lê todos os dias, o dia todo, e o livro ainda está na metade. Como isso será possível?
Eu simplesmente não aguento mais olhar para este livro. Normalmente, estaríamos conversando sobre os nossos planos para a noite, mas o jantar foi cancelado porque ela não consegue largar o livro. “Viva sua vida!”, eu quero gritar, mas meus dedos tremem enquanto mudo a música em meu celular.
O ônibus percorre de maneira rápida as avenidas vazias, fazendo-me balançar de um lado para o outro. Lá fora, a Lua assume seu lugar, majestosa. Olho para o maldito livro mais uma vez. Puxo-o de suas mãos magras e o jogo pela janela.
Pisco os olhos. Ela sorri para mim com o livro em suas mãos, como em uma conspiração para me enlouquecer.

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