
17. Você está correndo, sem rumo, pelas ruas
O vento frio bate em minha nuca, arrepiando-me. Deve começar a chover a qualquer momento, tinha dito o meu avô. Estou sem guarda-chuva, mas, de qualquer forma, é tarde demais para voltar.
Minhas pernas doem pelo ritmo intenso da corrida. Queria parar pelo menos por um segundo, respirar um pouco, tomar um copo d’água. Não posso. Sei que, se parar, eles me pegarão. Irão me fazer perguntas sobre o paradeiro do meu melhor amigo, algo que não sei responder. Mas eles não aceitarão isto como resposta e, então, tudo estará acabado para mim. Não quero pensar nisto agora.
Concentro-me no movimento de minhas pernas, na maneira como meu corpo se sacode com a corrida. Sou uma incrível máquina. Meu cérebro decide o que quer fazer e meu corpo obedece. Simples assim. Pelo menos disso posso ter o controle. Posso escolher correr o mais rápido possível e assim chegarei lá em breve.
Mas lá onde? Em algum lugar afastado, onde possa me camuflar no meio de pessoas festejando? Ou talvez em um hotel de beira de estrada, onde dormir tranquilo? Talvez eu possa correr até a fronteira, mas eles com certeza me encontrariam.
De qualquer forma, eles irão me encontrar em algum momento. E a situação vai ser ainda pior. Eles dirão que sou culpado porque fugi, já que apenas queriam fazer algumas perguntas. Mas isto não importa agora. A questão não é se me encontrarão, mas quando e como.
Um homem de jaleco branco passa ao meu lado e me observa atentamente. Noto quando ele pega seu celular e faz uma ligação. Corro mais rapidamente, até que o homem saia completamente do meu campo de visão. Mas isto foi um erro. Agora cheguei ao meu limite, preciso parar e me sentar um pouco, nem que seja por um instante.
Em um banco de madeira, estico as pernas e fecho meus olhos por um segundo. Quando os abro novamente, os homens já estão ao meu redor. Fim da linha.

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