O preço do silêncio

AVISO DE GATILHO: ESTUPRO

Naquela manhã do dia 5 de novembro, Márcio acordou cedo como sempre. Vestiu a roupa que havia separado na noite anterior, penteou os cabelos, deu um beijo em sua esposa e saiu para trabalhar exatamente às 07:30.

Desceu a escada saltitante e começou sua caminhada até o local de trabalho, ouvindo música em seus fones. Caminhou pelas mesmas ruas, pisou nas mesmas calçadas e tudo indicava que aquele seria um dia normal.

Entretanto, sem saber por que, decidiu cortar caminho por um beco próximo ao trabalho e desejou nunca ter passado por ali. Viu seu chefe penetrando uma mulher por trás. Os cabelos da mulher estavam desarrumados e seu vestido, rasgado. Ela se virou para Márcio com o rosto cheio de lágrimas. O chefe notou a presença do empregado e simplesmente lhe encarou.

Márcio retomou o caminho até o serviço, sem deixar de olhar para trás. “Será que ela estava sendo estuprada?”, ele se questionava. “Mas por que ela não me pediu ajuda? Eu devia tê-la tirado dali, tirado aquele nojento dela. Eu não deveria ter ido embora. Sou apenas um covarde”.

Minutos depois, o chefe chegou ao trabalho e o chamou a seu escritório.

— Sabe, Márcio, eu só queria conversar um pouco com você. O que você viu naquele beco foi só um sexo de reconciliação. Aquela garota é minha amante há um longo tempo. Você é um ótimo funcionário e seria uma pena perdê-lo por um motivo tão idiota. Além disso, acho que você precisa deste emprego para pagar o tratamento de sua esposa, não é? Espero que possamos esquecer tudo isso, ok?

— Sem problemas, chefe.

Márcio saiu do escritório sentindo-se um lixo. Precisava decidir o que fazer. Se contasse para a sua esposa, sabia que ela diria para denunciar o chefe. Mas então ficariam sem um só centavo para o tratamento dela. Se ficasse calado, aquela situação poderia se repetir com outras mulheres. Márcio não conseguia colocar seus pensamentos em ordem.

Este, com certeza, não era um dia igual aos outros.

Aviso: Se você presenciar alguma violência contra a mulher (física, sexual, psicológica) ou tiver sofrido alguma dessas violências, denuncie. Ligue 180.

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.