
Quando toco minha mão na dela, sinto o movimento involuntário de seus dedos. Já estou quase acostumado a isso. Sua boca me beija com paixão, mas, deitados em sua cama de casal, seu corpo me repele. Tento me aproximar, mas ela abraça o seu próprio corpo, desculpando-se sem abrir a boca.
Nunca quis perguntar a ela o que aconteceu. Achava que era algo muito pessoal, que ela nunca iria tocar no assunto. Mas, em um desses dias, ela me contou tudo que aconteceu. Minha garganta fechou. Eu queria abraçá-la e dizer que estava tudo bem, que isso já tinha passado. Mesmo assim, fiquei quieto, escutando-a falar, esperando que ela se sentisse mais leve.
Ela não se sentiu assim. Quando terminou de contar, seus olhos encheram-se de lágrimas. Gentilmente, a acolhi em meus braços. Não disse nada, mas também não havia nada para dizer nesse momento. Nada que eu pudesse dizer tornaria a situação menos insuportável, nada poderia curar as cicatrizes dos momentos horríveis que ela viveu.
Ficamos abraçados por uma eternidade. Depois, deitamos em sua cama e ela, por fim, adormeceu. Aos poucos, fomos aprendendo a lidar com essas cicatrizes e ela começou a confiar em mim. Mesmo assim, continuamos a esbarrar nessas terríveis cicatrizes de vez em quando. Elas nunca vão embora.

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