
A dose faz minha garganta queimar. Levanto-me da cadeira e caminho até a porta, pisando nos calcanhares alheios. O vento frio toca minha pele descoberta, fazendo-me arrepiar. Pela primeira vez em meses, arrependo-me por não ter trazido um casaco.
Do outro lado da rua, as luzes se acendem. Não preciso levantar os olhos para ver sua sombra entrando em casa, deixando a bolsa sobre a mesa. Já vi isso tantas vezes que parece a imagem de um filme do qual me lembro muito bem.
Em minha cabeça, completo sua rota habitual: trocar de roupa, comer algo, se deitar no sofá.
Então, um barulho me surpreende. Olho para cima e a vejo encostada na janela fumando um cigarro, os olhos fixos em mim.
Merda, fui descoberto. Volto para o bar e tomo mais uma dose.

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