Descarte

Finalmente encontro meu relógio de bolso. Depois de tantos meses, acabei o encontrando de uma hora para outra. Coloco-o em meu bolso, cada vez mais desesperado para sair daqui.

Uso minhas mãos para me empurrar para fora do quarto. As tralhas são tantas que parecem me sufocar. Está ficando mais difícil andar por aqui. Sem contar o cheiro, que me dá vontade de vomitar toda vez que entro no quarto.

Eu já falei pra ela um milhão de vezes que precisamos dar um jeito nisso, que a nossa casa está ficando inabitável. Mas ela sempre ignora. Sempre diz que eu estou exagerando, por mais que nossa casa esteja parecendo mais com um lixão. Ela diz que precisa de todos esses objetos. Ou, pelo menos, que um dia vai precisar.

Suspiro ao finalmente conseguir sair do quarto. O resto da casa está uma bagunça, mas eu ainda consigo caminhar de um lado para o outro sem que uma tonelada de coisas caia em cima de minha cabeça.

Coloco a mão no bolso para pegar meu relógio e… merda. Merda. Cadê a porra desse relógio? Não, não pode ser. O bolso está furado. Eu preciso desse relógio. Preciso vendê-lo logo para ajudar na entrada do carro e me livrar finalmente daquela lata velha. Mas não, o relógio não está aqui. 

Volto para dentro do quarto, revirando tudo que está no chão. Eu não consigo respirar de tão abafado que está, mas continuo o que tenho que fazer. 

Então, sinto o ouro gelado entrando em contato com minha mão e o puxo para cima. Mas outra coisa vem junto. Não me permito gritar e resisto ao impulso de colocar todo o meu almoço para fora. Um braço humano está na minha frente. Um verdadeiro braço humano em decomposição. 

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.