
Abro a porta com um suspiro. Mais um dia cansativo, mais um dia em que volto para casa frustrado. A verdade é que o trabalho já não me satisfaz mais. Não aguento mais o meu chefe, nem a maneira como ele me trata. Não suporto o olhar de deboche que ele faz toda vez que olha o trabalho que fiz e que consumiu horas do meu dia.
Não suporto nada disso. A única coisa que tem me animado é chegar em casa. Mesmo vendo-a vazia. Mesmo sabendo que minha esposa nunca mais vai voltar. Que nunca mais serei recebido por meus filhos com um abraço. Porque eu trabalhei demais, me dediquei demais a um trabalho que não me dá nenhuma recompensa a não ser o dinheiro.
De que me serve o dinheiro agora? Ele não vai trazer minha família de volta, vai? Não, claro que não. Mas eu também não posso simplesmente ficar sem fonte de renda.
Preciso pensar. Não agora, claro. Agora, eu preciso relaxar. Vou para o meu quarto, onde a minha esposa está amarrada, completamente imóvel.
— Boa noite, meu amor. Tinha me esquecido que você estava aí.
Ela não responde. Claro que não. E depois sou eu quem sou visto como insensível.

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