
NÃO!
Eu havia gritado, suplicado. Mas não me ouviram. Agora ela jazia ali, imóvel, destroçada. O que teria acontecido se eu houvesse chegado antes? Será que me escutariam, se importariam com os meus gritos? Talvez se tivesse enrolado meus braços ao redor dela nada disso teria acontecido.
Deveria ter feito, mas não fiz porque sou burro, porque parei na lanchonete para pegar o salgado, porque não corri atrás de meu ônibus que se preparava para sair da parada. E agora? Qual será a reação daquela que tanto a ama? Ela vai chorar, espernear? Ou vai ficar quieta no seu canto, como sempre faz em momentos de tristeza?
Não deveria ter saído de casa neste dia. Devia ter permanecido ali, o dia todo, ao lado dela, pois eu sabia de todas as ameaças que sofria. Mas não acreditei que eles fariam isso. Não pensei que teriam coragem, depois de tanto implorarmos para que não o fizessem. Achei que teriam piedade, considerando o tempo em que ela está ali.
Os homens saem tranquilos, já fizeram seu trabalho. Eu queria esta tranquilidade, mas jamais conseguiria alcançá-la. A culpa foi minha. Prometi estar ao seu lado quando o dia chegasse. Disse que impediria isto. Mesmo que ela não seja tão especial para mim, é para alguém que eu amo muito.
Não poderia deixar que fizessem isso. Mas eles fizeram. Sem dó nem piedade, destruíram um passado e um sonho. E mesmo assim vão dormir tranquilos hoje. Eu não. Sinto-me culpado disso tudo, indiretamente, participei deste massacre. Eu nunca me perdoarei. Todos os dias verei o olhar decepcionado dela por não ter impedido, por ter deixado que aquilo acontecesse.
Claro, eu não poderia ter passado o dia todo ali. Entretanto, poderia ter pagado alguém para ficar ao lado dela, para protegê-la, evitando o perigo que se aproximava. Falhei. Não queria ser a pessoa que vai contar isso a ela. Mas serei.
Entro em casa e a vejo. Como contar para a minha avó se ela guardava tantas lembranças bonitas que se perderam? Destruíram a antiga casa de minha avó. Como explicar que este mundo não existe mais?

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