
19. Você não consegue dormir
Há mais de duas horas me deitei nesta cama e não consigo dormir. As luzes da cidade continuam muito fortes e o barulho, ininterrupto. Em mais ou menos dez minutos ouvi dezenas pessoas falando alto na rua, vários carros tocando música alta, além de um grupo de amigos festejando no apartamento ao lado.
Isto é muito diferente de tudo a que estou acostumada. Na minha cidade, tudo silencia depois das dez. Fazemos o que se espera de uma pequena cidade do interior: trabalhar, jantar e depois dormir. No fim de semana, o máximo que temos é um churrasco com a família e antes das oito da noite já estamos na cama.
E ainda é quarta-feira. Será que estas pessoas não têm que trabalhar amanhã? Ou será que vão da boate direto para o trabalho, sentindo-se meio bêbadas e tentando disfarçar com óculos escuros e tomando muita água?
Isto faz com que eu me pergunte se estava certa ao vir para cá. O teatro sempre foi o meu sonho e poder estudar isso em uma das melhores faculdades do país é uma coisa maravilhosa. Mas não me encaixo aqui. Não pareço nada com eles. Eles gostam de beber e festejar até tarde enquanto eu prefiro sair para comer com um amigo.
Nunca senti que eu pertencia à minha cidade. Mas agora, estando sozinha em um lugar completamente desconhecido, gostaria de voltar para lá.
Escuto batidas em minha porta. Uma garota vestida com um roupão lilás está parada ali.
— Você poderia fazer menos barulho? Estou tentando dormir. – ela olha em volta. – Ah, me desculpe. Bati na porta errada. É que os vizinhos não param de fazer barulho e eu não aguento mais!
— Eu te entendo. – digo. – Também estava tentando dormir.
— Tenho que falar com esses idiotas. De qualquer forma, estou sem sono. Quer ir na esquina comer alguma coisa? Eu estava pensando em um hambúrguer ou um donut.
— Claro.
Coloco uma roupa e descemos. Conversamos sobre diversos assuntos e acabamos dividindo uma pizza. De qualquer forma, quando saímos da pizzaria, já não me sentia tão deslocada. Tinha encontrado uma amiga.

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