Incendiária

O controle do videogame escorrega de suas mãos oleosas. A garota acaba de cair no sono, com o cigarro de filtro vermelho ainda na boca. Espero que ela não durma de boca aberta. Espero que tudo fique bem.

Ela usa uma saia verde horrorosa e um cropped branco. Para mim, sua roupa é totalmente ridícula, mas não é por isso que eu iria querer que ela morresse queimada.

Ao seu lado, no chão, várias latas de cerveja. Ela exagerou na dose hoje e amanhã terá uma ressaca terrível. Se ainda estiver viva, é claro.

Sua cabeça cai para trás e meu coração sai pela boca. Vejo quando ela abre a boca bem devagar, o cigarro ficando cada vez mais baixo. Minha vontade é de correr até ela e apagar seu cigarro, mas o que eu posso fazer? Sou apenas um narrador.

Então, fico observando o cigarro cair de sua boca e fazer um furo em sua saia. Vejo quando ela o empurra com os braços, ainda dormindo, acertando-o em sua cama. E vejo quando os lençóis começam a pegar fogo, enquanto a garota continua dormindo despreocupadamente. Maldito dia em que me candidatei para ser narrador. 

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.