
O termostato marca trinta graus e ainda é uma da manhã. Deslizo meu braço pela cama, mas não a encontro ali. Não que eu não esperasse isso dela. Não que eu não imaginasse que isso aconteceria.
Pego meu celular e envio uma mensagem: “Cadê você?”. Levanto-me da cama, desejando ter um ar condicionado. Talvez, se ela não tivesse vendido o nosso… E agora, sabe-se lá o que ela está fazendo. Na verdade, eu sei.
Não, eu não podia agir assim. Não podia culpá-la sem lhe dar o benefício da dúvida. Talvez só estivesse com sede. Talvez tenha ido ao banheiro, qualquer coisa. Mas a procuro pela casa toda e ela não está ali.
Então, saio pelas ruas a procurá-la, como fiz tantas vezes, desejando que ela decida mudar de verdade e não vir com promessas falsas mais uma vez. Esperando que ela se arrependa de ter caído mais uma vez.
Depois de algum tempo, a encontro. Estou prestes a ir até ela quando percebo que não está sozinha. Fico ali, de longe no canto, observando. Não escuto nada, mas vejo tudo daqui.
Ela, empurrando o outro no chão. Os chutes, os murros. Chego a escutar os gritos daquele homem que tenta se levantar. Não consigo me mexer. Sou dominado pelo medo. Quem é esta pessoa que levei para dentro de minha casa? Será que o próximo sou eu?
Tentei tantas vezes ir embora, deixá-la cuidar de sua própria vida, parar de me esforçar por quem não se importa.
Vejo-a, então, se encostar na parede, sorrindo para o pacote que ela tanto queria. O homem, sob a luz do poste, mexe as mãos, mas não tem forças para se levantar. Ela não dá a mínima. Nem para ele e nem para ninguém.
Para mim, já deu. Volto para casa, preferindo um banho frio.
Amanhã, logo cedo, vou chamar o chaveiro. Sem falta.

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