Sentidos

Se eu respirar fundo, ainda consigo sentir aquele cheiro. O cheiro de terra molhada, o chá de hortelã feito na hora e o chiado constante no rádio.

Eu pulava e corria até perder o fôlego, enquanto seus olhos me seguiam pela estrada de terra que levava até aquela casa no meio do nada. Ele quer me manter em segurança, pensava eu, enquanto ia, mais uma vez, ao banheiro daquela casa fria e suja.

Subia os degraus, de dois em dois, até o quarto enquanto ele, atrás de mim, ameaçava me fazer cócegas até que eu não aguentasse mais.

Eu amava estar ali. Até o dia em que entendi o que estava acontecendo.

Hoje, a casa ficou silenciosa. Ninguém mais faz chá. As minhas mãos se sujaram de terra. Na verdade, não apenas minhas mãos. Eu estava coberta daquele líquido vermelho e a terra se grudava em meu corpo quando vi o seu rosto pela última vez.

Sim, pela última vez, porque, logo em seguida, ele jogou a última pá cheia de terra em mim. E tudo ficou escuro.

Se eu respirar fundo, conseguirei sentir todos estes cheiros e gostos da minha infância. Mas agora não consigo respirar. Não posso respirar.

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Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.