Seu Osvaldo nasceu no meio do nada. Para onde quer que
olhasse, via apenas mato. E vacas, bois, cavalos e galinhas. Entretanto, o que
mais gostava era o mato. Adorava passar a mão pelas folhas das árvores e se
pendurar em seus galhos. Foi este ambiente que ocupou durante quase toda sua
vida.
Filho bastardo, ajudou a mãe a cuidar de seus dez
meios-irmãos. Frequentemente, era vítima dos acessos de raiva dela, mas não se
importava. Continuava tomando conta de tudo e de todos, não importando o que
acontecesse.
Aos vinte anos, saiu da casa da mãe pois a situação havia
ficado insustentável. Depois do nascimento dos seus dois primeiros sobrinhos,
não havia mais espaço para todos habitarem a mesma casa.
Conseguiu um emprego na fazenda do senhor Borges, um homem
muito rico que possuía um terreno de mais de quinhentos alqueires. Lá, conheceu
Vaninha, a filha do patrão. Sentia-se nervoso perto dela e o seu maior desejo
era poder tocar seus cabelos castanhos e roubar-lhe um beijo. Vaninha sentia
atração por ele, mas sabia que não era certo.
Uma noite, seus sonhos se realizaram. A lua iluminava o céu
e ele havia terminado seu trabalho naquele dia. Estava fedido e sujo quando
Vaninha apareceu. Ele nunca tinha visto mulher tão linda. Ela parecia brilhar
naquela noite. Seus cabelos estavam soltos e usava um vestido de noite.
Enquanto Vaninha esperava sua carona para a quermesse, começaram a conversar.
Ela não apareceu em evento nenhum naquela noite.
Uma semana depois, fugiram para o Mato Grosso. As mãos de
seu Osvaldo suavam e o coração falhava ao pensar na possibilidade de serem
pegos, mas se sentia prestes a desmaiar cada vez que olhava para Vaninha. Se
tivesse ganhado na Mega Sena, ainda se sentiria menos sortudo do que naquele
momento. Ela, por espontânea vontade, havia deixado tudo para fugir com ele.
Osvaldo só tinha carinho e dedicação para lhe dar.
Algum tempo depois, ele descobriu que o Senhor Borges havia
oferecido uma recompensa pela cabeça deles. Não se importou com isso, pois
estava longe do Maranhão e muito apaixonado pela mulher.
Viveram felizes por muitos anos na casa de seu novo patrão.
Enquanto ele trabalhava na fazenda, Vaninha cuidava de seus quatro filhos. Ele
sempre a surpreendia com flores ou suas comidas favoritas. Todas as noites,
antes de dormir, dizia a ela:
–– Amo você mais do que todas as estrelas do céu!
E ela sorria.
Mas o tempo passou, os filhos foram embora de casa e
Vaninha passou a ficar mais deprimida. Reclamava de tudo. Da comida que era
pouca, da distância dos filhos, da ausência do marido durante todo o dia.
Osvaldo tentava agradá-la levando-a para as quermesses, levando sua fruta
favorita, mas nada parecia resolver o problema.
Em um fatídico dia, Vaninha parou de reclamar. Tudo para
ela era bom e todos os esforços de Osvaldo eram recompensados. E assim viveram
por mais de dez anos, ambos com sorriso enorme no rosto.
Aos sessenta anos, Seu Osvaldo vivia o melhor momento de
sua vida. Tinha uma esposa maravilhosa, filhos prestativos e havia virado homem
de confiança do dono da fazenda. Chegou em casa com um buquê de margaridas
apanhadas no quintal, mas a habitação estava silenciosa. Gritou por Vaninha,
não obtendo resposta.
Correu até o quarto e sentiu as vistas escurecerem, caindo
em um baque surdo. Ao acordar, Vaninha ainda estava lá, banhada em vermelho.
Seu Osvaldo também havia caído no grande rio de sangue. Gritou para chamar
ajuda e essa foi a última vez que se escutou sua voz.
Vinte e dois anos se passaram. Osvaldo continua mergulhado
no silêncio. A pedido seu, não recebe visita dos filhos e o único som que
resiste é o da televisão, constante e aprisionador. A vida é cada vez mais
silenciosa, enquanto tudo grita dentro dele.
Seu Osvaldo se culpa o tempo todo por não ter estado
presente, por não ter ouvido a mulher que amava. Que ainda ama. No silêncio da
casa, ele ainda a escuta. Mas, ao contrário do que se espera, ela não grita.
Vaninha está calada, assim como Osvaldo, assim como milhares de pessoas que
decidem se calar para enfrentar a dor.
Silêncio. A noite toda transcorre em silêncio. Nenhum
barulho, nem dos passos vacilantes do homem, nem dos grilos que cantavam sempre.
Nem mesmo as vacas se movem no campo. Hoje Seu Osvaldo desligou a televisão.