• Domingo à tarde

    A casa de minha avó possuía apenas três quartos e nem era tão grande quanto parecia. Mas ali todos os domingos parecia caber o mundo todo: avós, pais, tios, netos e primos, todos juntos para o almoço.

    Sentados à mesa de tampo de vidro, conversávamos sobre tudo o que acontecia. Alguns primos contavam piadas, outros tios perguntavam sobre a escola. Bebíamos litros de Coca-Cola acompanhando a lasanha de presunto e queijo de minha avó.

    Depois do almoço, saíamos eu e Gabriel, meu primo. Gritávamos o nome de minha amiga Stephanie na casa ao lado e íamos aprontar na rua. Tocávamos as campainhas das casas vizinhas, caminhávamos, passávamos trote, íamos jogar algo. Quando os primos da Stephanie estavam lá, fazíamos a festa. Às vezes, fechávamos a rua com nossas brincadeiras, que iam desde pique-pega até futebol.

    Corríamos e brincávamos a tarde toda, o que muitas vezes resultava – para mim, principalmente – em machucados e ralados pelo corpo. Entrava em casa chorando, com o sangue escorrendo pela sala de estar. Minha mãe logo vinha fazer um curativo.

    Enquanto isso, os primos mais velhos assistiam a filmes na TV e os tios ficavam na parte de trás da casa, bebendo e ouvindo música. Nós não entendíamos o que eles achavam tão divertido nisso e preferíamos ficar correndo na rua ou imitando as cenas mais famosas das novelas da Globo, como a famosa de Nazaré Tedesco roubando o bebê.

    Algumas noites, observávamos os homens que entravam no prostíbulo que existia no final da rua e depois suas sombras no quarto da frente com alguma das mulheres. Ríamos daquela cena toda, sem entender bem o que acontecia.

    Logo depois, escutávamos os gritos das nossas mães. Gabriel ia embora e Stephanie entrava em casa. Eu voltava para a casa da minha avó, minha casa, onde alguns tios ainda permaneciam bebendo e conversando.

    Tomava um banho quente para relaxar o corpo e me sentava ao lado de minha avó na sala para assistir a alguma novela. Ela me abraçava e nós conversávamos sobre o que estávamos vendo ou sobre algo que eu não entendia. Ela fazia o jantar ou, de vez em quando, comíamos alguns restos de lasanha que ela havia escondido. Depois, víamos até a última novela da noite, quando minha mãe já estava dormindo.

    Depois disso, minha avó me dava um abraço e um beijo de boa noite e ia se deitar ao lado de meu avô. Eu me aconchegava em minha mãe e dormia, sonhando com o próximo domingo e as novas aventuras que viveria.

  • Imagem: Netflix

    As Telefonistas (Las Chicas del Cable) é uma produção espanhola original da Netflix.

    Ela conta a história de quatro amigas morando em Madrid em 1929 e que trabalham para uma empresa de telecomunicações. A personagem principal é Alba (Blanca Suárez) – que assume o nome de Lídia Aguilar para fugir de seu passado. Logo que chega na empresa, ela encontra Francisco (Yon González), seu amor do passado.

    Alba logo conhece algumas garotas, que logo se tornam suas amigas: Carlota (Ana Fernández), Ángeles (Maggie Civantos) e Marga (Nadia de Santiago. Juntas, elas enfrentam diversas situações e também se empenham pela luta dos direitos das mulheres.

    É uma série feminista, de mulheres fortes vivendo em uma sociedade patriarcal, onde possuíam poucos direitos. Vale a pena assistir e refletir sobre.

    As Telefonistas possui quatro temporadas e está disponível na Netflix.

  • Releitura

    A mulher, deitada no sofá, passa a mão na barriga saliente. Todos os dias, conversa com aquele pequeno pedaço de si e também recita poemas. Lorca, Quintana, Bandeira, Coralina, sempre grandes autores da biblioteca pessoal de quase quatro mil livros.

    Logo, as leituras passam a ser outras: contos de fada, histórias fantásticas e até gibis. Cultiva na filha a criatividade e o amor por livros, coisas que nunca lhe ensinaram na infância.

    Ela vê a filha começar a ler e percebe que ela repara até nas informações nutricionais de um saco de feijão. Além disso, a mãe não reclama quando encontra inúmeros papeis espalhados pela casa, nos quais a menina treina seu nome: L-A-U-R-A.

    A mãe começa a comprar livros com ilustrações, gibis da turma da Mônica, que a garota devora. Também observa as longas leituras que ela faz junto com a dentista que lhe apresentou os livros do Ursinho Pooh, que vive aventuras mágicas com Tigrão, Leitão e  Ió – seus personagens favoritos.

    No ápice da era Orkut, rede social mais popular no Brasil dos anos 2000,  a mãe satisfaz-se ao ver a filha começar a escrever fanfics – também chamadas de webnovelas à época – e a conquistar um pequeno número de leitores.

    Porém, como as modas são voláteis, o Orkut acaba e a garota perde os seus leitores. Na fase Facebook, na qual “quase ninguém está interessado em ler textões”, ela abandona o mundo da escrita e da leitura.

    A mulher, que voltou a não dormir à noite, observa a filha se envolver em um mundo louco, cheio de amigos falsos e noitadas – todos os dias da semana.

    Um ano antes da democracia brasileira começar a ser desmontada com o impeachment da presidenta Dilma, a filha inicia o curso de Comunicação Organizacional na Universidade de Brasília, enchendo-a ainda mais de orgulho. Dois anos depois, a reviravolta: a garota quer ser escritora.

    A mãe pesquisa cursos de pós-graduação em escrita, incentivando-a a não abandonar a faculdade. Empresta a ela muitos de seus livros. O repertório da garota não é mais formado apenas de best-sellers, mas também de autores clássicos: Marcel Proust, Jane Austen, Herman Melville.

    Acompanha o começo do blog Provável Escritora, a filha retornando ao passatempo de escrever fanfics enquanto busca a formatura.

    Agora formada, a filha diz ser desempregada, mas a mãe não acredita nisto. Ela aposta em seus sonhos e crê que sua profissão, neste momento, é ser escritora em tempo integral.

  • Imagem: Gram Games

    O aplicativo do mês é, novamente, um jogo. Eu tenho vários e vários jogos no meu celular, mas um dos que eu mais jogo atualmente é o Merge Dragons!

    Basicamente, este é um jogo de combinação de itens iguais. Quando você tem três ovos de dragão você os combina, dando origem a um filhote de dragão. Quando tiver três dragões iguais, pode combiná-los também, criando um dragão maior.

    Além de combinar dragões, você também combina outros itens, como flores e orbes da vida, que são utilizados para desbloquear novas terras.

    A maioria das fases não possui tempo (com exceção dos desafios), então você pode demorar o tempo que quiser para resolver uma fase.

    Ao completar uma fase, você ganha recompensas para o seu acampamento (onde ficam seus dragões e itens comprados/ganhados).

    O jogo é muito divertido e sempre existe a curiosidade do que vai surgir quando fizer uma nova combinação. Merge Dragons! está disponível para Android e iOS.

  • Dia especial

    Você me amou desde o começo. Pela primeira vez, você descobriu que o choro de outra pessoa poderia te fazer sorrir. Você esteve ao meu lado em todos os momentos. Quando aprendi a andar, a falar, a ler, a escrever. Também presenciou a primeira vez em que eu tive o coração partido e todas as outras vezes depois dessa. Participou também dos momentos ruins, em que tudo que eu queria era ficar na rua o tempo todo e nós brigávamos constantemente. E me amou mesmo assim.

    Você é meu porto seguro. Na minha época mais triste, a única coisa que me alegrava, depois de um dia exaustivo na faculdade, era entrar no ônibus e saber que você estaria na parada me esperando. É graças a você que estou nesse mundo. E é também graças a você que eu tenho forças para continuar nele e correr atrás dos meus sonhos todos os dias. Sei que neste planeta somos apenas grãos de areia, mas é bom aproveitar a praia ao seu lado. Se Deus permitir, permaneceremos muito tempo assim.

  • Imagem: Photo Roulette

    O aplicativo deste mês eu conheci numa aula, mas ninguém quis ainda jogar comigo em casa. O Photo Roulette é um jogo que coleta algumas fotos aleatoriamente para que você e os outros jogadores tenham que adivinhar de quem é.

    Você pode também escolher uma foto específica para aparecer no jogo ou deixar que ele escolha aleatoriamente. Você teria coragem de mostrar suas fotos para todos?

    Photo Roulette está disponível para Android e iOS e é grátis.

  • Teste de memória

    O dia amanhece ensolarado. Depois de comer dois pães e tomar um café quentinho preparado por minha avó, ando até o jardim. Aos nove anos, o maior contato com a natureza que possuo é o jardim de sua casa – onde as visitas são cada vez menos frequentes, por conta de minha mudança para a capital do país.

    Reparo em cada canto deste jardim: o verde vivo das folhas, o pé de milho que cresce de maneira imperceptível, as frutas caídas e os pequenos animais que ali habitam. Observo um caracol se locomovendo, enquanto deixa um fluido pela folha onde passa.

    Sem pensar duas vezes, estendo minha mão para que ele deslize até ela. Surpreendentemente, ele o faz. Passo a manhã toda transportando-o de uma folha para a outra. Depois do almoço, volto a fazer o mesmo. Minha avó só percebe que estou brincando com caracóis no final da tarde. Ela pede para que eu não faça mais isso e me avisa que está na hora de tomar banho.

    Depois do jantar, deito-me em sua barriga para ver TV e aproveito esta paz que só existe em casa de vó. Do lado de fora, os caracóis deslizam, desbravando este grande universo do quintal e deixando rastros por onde passam.

  • Imagem: Netflix

    A série deste mês é uma das minhas queridinhas faz tempo. Já me afeiçoei com as personagens e vivi todo tipo de emoção: sorri, chorei, fiquei irritada com algumas delas.

    Orange Is The New Black conta a história de Piper Chapman (Taylor Schilling) que, depois de se envolver com a traficante Alex Vause (Laura Prepon), é presa na penitenciária de Litchfield.

    Logo, a história para de focar apenas em Piper (que, na minha opinião, é a personagem mais chata) e nós conhecemos as outras garotas da prisão, cada uma com seu jeitinho e personalidades completamente diferentes.

    Infelizmente, a série acabou este mês, em sua sétima temporada. De qualquer forma, é interessante acompanhar a evolução de cada uma das garotas ao longo desse tempo.

    Orange Is The New Black está disponível na Netflix.

Sou Laura Braga

27 anos. Formada em Comunicação Organizacional pela Universidade de Brasília. Procurando aprimorar a escrita e trazer sempre conteúdos melhores.